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Combate à lavagem de dinheiro na era de COVID-19

Por: Redação, ⌚ 05/01/2021 às 17h29 - Atualizado em 05/01/2021 às 17h29

Autor destaca preocupações do dia a dia agravadas pelas atuais e atípicas circunstâncias em tempos de coronavírus


Por Adrián Sánchez


A pandemia de COVID-19 está forçando as instituições financeiras (IFs) a ajustar seus planos. São instituições que enfrentam novos desafios, entre os quais os principais são os de manter o relacionamento com clientes sem afetar sua experiência, continuando a mitigar riscos relacionados. Tudo isso, enquanto ajustam seus processos internos e se adaptam às novas condições, como o home office. Certamente, esta é uma tarefa sem precedentes, já que as IFs devem mover operações inteiras para o ambiente digital, sem deixar de lado seus controles e processos de supervisão. Isto ainda em meio a múltiplos novos desafios, incluindo diversos programas governamentais de estímulos fiscais e financeiros que visam retomar as economias afetadas nos diferentes países. Além disso, com a migração acelerada para os canais digitais, o número de transações online, novos dispositivos e usuários digitais crescem diariamente, o que dificulta o processo de identificação e mitigação de riscos.


A nova dinâmica exige que o processo de identificação do cliente seja mais ágil e sem a tradicional presença física da pessoa na agência bancária, bem como sem requerer os inúmeros documentos necessários para os processos de validação de correntistas. Isto, sem dúvida, representa um dos grandes desafios às IFs, uma vez que devem garantir que seus sistemas operem de forma eficiente e segura, como antes da COVID-19, enquanto identificam e respondem rapidamente às novas tipologias que os criminosos usam para cometer golpes financeiros.


O ambiente atual é certamente desafiador, mas os riscos que as empresas enfrentam não mudaram substancialmente. As instituições financeiras têm que lidar com as mesmas preocupações de antes, embora a pandemia as tenha intensificado. Pressões orçamentárias, priorização de riscos, um setor altamente regulamentado e a mudança das transações presenciais para o digital são simplesmente o novo normal. A diferença é que as IFs também estão navegando em uma dinâmica, na qual os crimes financeiros estão crescendo, especialmente a partir da perspectiva do universo online.


As instituições financeiras precisam acelerar suas iniciativas estratégicas em andamento e podem começar, aproveitando os atributos de risco tecnológico e empresarial para automatizar os processos de forma segura e a distância, como resposta ao aumento do volume de trabalho durante a pandemia. As IFs serão capazes de alocar a capacidade intelectual e avançar com sucesso: do modo de resposta rápida para o modo de tomada de decisão tática; caso incorporem tecnologias e melhorem as soluções de risco adequadamente.


1. COVID-19 acentua a importância de um orçamento estratégico


As instituições financeiras estão constantemente sob pressão, para alocar seus orçamentos da forma mais eficiente possível. O panorama de compliance para a prevenção de crimes financeiros, no âmbito de combate à lavagem de dinheiro, é cada vez mais complexo devido a requisitos de normas rigorosas, requerimentos restritos de programas de sanções, processadores de pagamentos, provedores de pagamentos não-bancarizados e, agora, uma pandemia global. Uma pesquisa recente da LexisNexis Risk Solutions sobre pré-pandemia, abordando o custo relacionado a compliance às normas de combate à lavagem de dinheiro revelou que os custos anuais de compliance para as IFs na América Latina totalizaram 5,95 bilhões de dólares até 2020.


A tendência é clara e os custos de compliance relacionados à prevenção de crimes financeiros estão aumentando. Ilias Chatzis, Chefe da Seção de Tráfico de Pessoas do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (ONUDD), revelou em maio, ao falar sobre tráfico de pessoas, que “os traficantes podem se tornar mais atuantes e tirar vantagens de pessoas que estão ainda mais vulneráveis do que antes, porque perderam sua fonte de renda devido às medidas de combate ao vírus“. O tráfico de pessoas é apenas um exemplo do risco adicional a que as IFs estão expostas. As instituições financeiras devem ter cuidado não apenas com crimes de lavagem de dinheiro, mas também com golpes relacionados a fraudes, suborno e corrupção.


A COVID-19 ampliou a necessidade de aumentar a eficiência, visando maximizar o valor de cada dólar gasto pelas instituições financeiras. Cada região no mundo tem seus próprios riscos e desafios em relação à lavagem de dinheiro e ao compliance para crimes financeiros. Além disso, a atual crise agrava isso ao afetar os países de maneiras diferentes. Uma solução prática seria as instituições financeiras readequarem os seus orçamentos para acelerar as iniciativas tecnológicas e riscos de negócios atribuídos à escala e automação de processos. O uso de tecnologias apropriadas pode reduzir os custos relacionados a recursos humanos e à mudança de foco dos profissionais de atividades manuais para a tomada de decisões significativas, que podem melhorar a moral dos funcionários e tornar as coisas mais fáceis durante o trabalho a distância. As organizações podem realmente reduzir o custo com compliance por equivalência de tempo integral, assim como os custos associados às oportunidades com as fricções que surgem e às perdas de negócios.


2. Priorizando riscos para enfrentar melhor a pandemia


A definição das prioridades em se tratando de risco é muito mais complexa, do que simplesmente classificar os potenciais perigos de operações distintas. As IFs examinam o volume de diferentes operações, as características e os comportamentos de forma holística para identificar malfeitores, bem como grandes esquemas de corrupção. A era de COVID-19 não é exceção a essa abordagem baseada em risco e, mais uma vez, apóia a necessidade de as instituições financeiras adotarem políticas flexíveis e maximizarem o seu potencial tecnológico.


A abordagem em camadas aproveitando as ferramentas tecnológicas é crucial para retomar os controles de prevenção de crimes financeiros e torná-los mais eficientes, para que, ao final das contas, tragam benefícios não apenas à organização, mas principalmente ao combate contra golpes financeiros. Investimentos relacionados a controles para prevenção de crimes financeiros, podem beneficiar outras unidades de negócios, nas quais a organização tenha um entendimento maior sobre os riscos e preferências do cliente. Pode haver um benefício do custo direto, quando mergulhamos na tecnologia de compliance para crimes financeiros.


É provável que outros tipos específicos de fraudes do setor aparecerão, por meio de empresas que expandiram sua presença no comércio eletrônico durante a pandemia. As instituições financeiras devem concentrar seus esforços em categorias de risco específicas e verificar os elementos do perfil de risco do cliente, incluindo antecedentes criminais, setores e profissões de alto risco, patrimônio e risco geográfico.


3. A transição das interações presenciais para as digitais


O aumento do trabalho a distância e do isolamento social preventivo acelerou a migração da interação humana para a digital. As instituições financeiras também estão detectando um movimento constante quanto ao afastamento da atividade presencial, ressaltando a necessidade de as instituições reexaminarem como identificam e rastreiam uma participação online suspeita.


As instituições financeiras estão capacitando as equipes nas agências, para buscarem por pistas físicas e indicadores que possam sugerir atividades fraudulentas durante as interações entre as pessoas. As IFs terão que aproveitar a inteligência relacionada com dispositivos como smartphones, tablets e computadores, e atributos como geolocalização, além de comportamentos anteriores para rastrear melhor as atividades suspeitas no universo digital. A incorporação de ferramentas biométricas comportamentais ao conjunto de soluções de prevenção à lavagem de dinheiro, pode oferecer às IFs um grande conhecimento sobre seus usuários finais através de plataformas digitais. Outros aprimoramentos tecnológicos críticos incluem a seleção de listas de vigilância, correção de alertas e gerenciamento robusto de dados para garantir a triagem inicial completa, monitoramento contínuo durante toda a jornada do cliente, bem como processos completos e simplificados para compliance.


Enfrentando a tempestade, enquanto se posiciona para o sucesso pós tormenta


A pandemia de COVID-19 apresenta uma oportunidade para os criminosos cometerem quantidades extraordinárias de crimes financeiros e, naturalmente, um risco elevado de lavagem de dinheiro. As instituições financeiras devem adaptar suas políticas e suas respostas às mudanças no comportamento do consumidor devido à COVID-19. As instituições financeiras enfrentarão maiores obstáculos em sua eficiência operacional, para identificar e rastrear atividades ilícitas quando a pandemia diminuir, se falharem nisso. Felizmente, parece haver um reconhecimento com relação às iniciativas de compliance para crimes financeiros, podendo fornecer benefícios mais amplos ao negócio.


As instituições financeiras têm a capacidade de resistir à tormenta atual e se posicionar para um futuro de sucesso, incorporando a tecnologia certa e uma abordagem baseada em risco. À medida que os criminosos se tornam mais sofisticados, uma abordagem ainda mais sofisticada será necessária para combatê-los.


*Adrián Sánchez

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