A vida do profissional de Tecnologia da Informação é composta de desafios das mais variadas ordens. Junção de empresa privada à pública; aumento acelerado e em curto espaço de tempo de colaboradores; aquisições por empresas estrangeiras que impõem mudança de cultura ou uma rede complexa, multimarca, além da incansável redução de custos. Quase todas essas situações foram relatadas por CIOs de empresas usuárias participantes de um painel realizado no evento IDC Brazil Infrastructure & Storevision Conference 2007.
O executivo de TI do banco Santander, Armando Lemos, passou pela tarefa de integrar os processos de duas grandes instituições financeiras, com o agravante de uma delas ser da área pública: Santander e Banespa. A principal necessidade foi ter de reescrever as informações, portanto, precisava de ferramentas que filtrasse e eliminasse dados redundantes, ou seja, soluções de ILM. Além disso, era preciso comparar grande quantidade de dados duplicados e destruir as mídias magnéticas, tendo em vista as questões de confidencialidade que envolvem de forma acentuada as instituições financeiras. Outro ponto, não menos importante, era como e quando recuperar informações relevantes.
Como redução de custo é o item do topo da lista de todo CIO, a área de TI do Santander trabalhou em conjunto com o departamento de compras. “A proposta foi maximizar os pedidos e garantir provisão e adoção no momento certo de cada uso”, relata Lemos. Houve choque das duas equipes, principalmente porque a decisão foi absorver o sistema do Santander, dentro do Banespa. “Aqueles que não se adaptaram tiveram de sair”, diz Lemos.
Aumento rápido
Nada fácil também é montar toda uma infra-estrutura tecnológica para a empresa que cresceu de três para mil funcionários no período de um ano. Porém, esse fato não tirou o bom-humor de Francisco Garcia, diretor de TI da Imbra Implantes Odontológicos. Ele conta que (acredite) implementou um sistema de ERP em três meses. “A defesa da compra foi em três dias e a escolha da marca em um”, diz Garcia, que fechou contrato com a Oracle, IBM e YKP para a implementação.
No primeiro momento, a opção foi por adquirir thin clients, por ser uma opção acessível em preço e manutenção. O fornecedor é nacional e colocou 300 equipamentos em rede. “Preciso de parceiros que me acompanhem na alegria e na tristeza”, brinca o executivo que disse não ter se arrependido por optar pela empresa nacional de thin clients, mas sem divulgar o nome. Nos planos da Imbra, está a implementação de sistemas de GED (gerenciamento eletrônico de documentos). “Estamos em busca de fornecedores para esse e outros sistemas”, avisa Garcia.
Na proposta da IDC de obter relatos de diferentes experiências de usuários, chegou a vez de Sergio Almeida, diretor de Tecnologia da empresa de transportes Cometa a expor os desafios e soluções de uma rede complexa, multiplataforma. Nesse caso, mais do que nunca há busca ferrenha pela redução de custos. Por isso, vale migrar a estrutura da rede e até negociar pesado com a operadora.
“A rede era X25 e migramos para Frame Relay e ADSL, mas essa não é muito satisfatória para a venda de bilhetes”, detalha Almeida. Outra ação foi a virtualização de servidores e está consolidando os demais que estão espalhados em unidades.
“O sistema de venda de passagem roda em um IBM I5, que também vai acolher o ERP que está em processo de desenvolvimento e implementação”, conta o diretor. Como a Cometa está mudando seus sistemas desenvolvidos internamente para os de mercado, muitos módulos customizados serão utilizados para outros clientes posteriormente. “Com isso, podemos dividir os custos de desenvolvimento com todos os parceiros de implementação”, conta.
Em busca da modernização de processos, o departamento de tecnologia está testando um sistema de venda de passagens dentro do próprio ônibus em percursos menores. Uma impressora instalada no coletivo emite o bilhete. Porém, foi preciso contar com a colaboração do fabricante para reforçar partes do equipamento e peças, que costumavam se soltar durante a viagem. “A coleta dos dados de cada equipamento está sendo, ainda, uma questão a ser resolvida”, diz Almeida.
Mundo globalizado, sistema único
Outra situação apresentada é a interferência recebida de fora do País, que tem aspectos positivos e negativos no que se refere ao gerenciamento da rede e de todo o departamento de tecnologia. Um dos desafios apontados pelo diretor de TI da empresa de auto-peças Delphi, Eduardo de Lima, é mudar a cultura de todos os envolvidos (funcionários, clientes, fornecedores) para o modelo globalizado.
“O relacionamento de TI com negócios passou a ter uma estrutura mais formal, baseada em SLA (acordo de qualidade de serviço)”, conta Lima, acrescentando que no rastro da redução de custos está um processo massivo de terceirização com empresas do porte da EDS, HP e CSC, fornecedora de telecomunicações, Internet e aplicativos. “A economia obtida foi da ordem de US$ 200 milhões”, diz o diretor.
Com o processo de terceirização, o departamento de TI, que contava com 150 funcionários, hoje mantém apenas 15, para manter as dez plantas da Delphi. Muitos deles foram absorvidos pelas empresas prestadoras de serviços. Entre os ganhos da globalização está o uso de tecnologias de ponta.
O lado acadêmico
Ainda na linha da redução de custo, o professor da FIAP, Roberto Marins, usa a expressão redução de desperdício para fixar melhor o conceito junto aos alunos. Marins avalia que o aluno deve ampliar seus conhecimentos, porque o mercado exige. “Tem de correr atrás da tecnologia e conhecer redes, por exemplo, mesmo que esse não seja o foco”, diz. Inovação e tecnologia caminham juntas e, o aprendizado real vem da aliança entre empresas de mercado e a academia. “Para formar o executivo de TI de amanhã, o aluno de hoje precisa ser cobrado de metas e desafios, saber das melhores práticas, Cobit e Sarbanes-Oxley”, avisa Marins.
Na América Latina, os investimentos em TI acompanham o PIB, que vem crescendo. De acordo com dados da IDC, no Brasil em 2002 o montante destinado foi de US$ 13 bilhões; em 2006 as empresas consumiram US$ 18 bilhões. As empresas usuárias no País devem investir em 2011 cerca de US$ 32 bilhões, acompanhando crescimento de 12% ao ano.