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Blockchain: da prospecção à massificação

Em entrevista à Decision Report, o especialista Mario Robredo destaca o processo de massificação dessa tecnologia e como ela pode ser aplicada nos negócios, das transações bancárias às comunicações da internet das coisas

Por: Léia Machado, ⌚ 06/09/2017 às 17h05 - Atualizado em 06/09/2017 às 17h05

De todas as tendências tecnológicas para o setor bancário, o Blockchain é a mais promissora. Isso porque é uma tecnologia-chave para a reinvenção das transações e vem criando muita expectativa. Ela endereça a primeira tentativa séria da tecnologia de resolver um dos principais problemas econômicos desde o início dos tempos: oferecer aos envolvidos em uma transação de valores a confiança de fazer uma troca sem qualquer tipo de intermediação.

 

A este respeito, é importante lembrar que Blockchain é a criação do primeiro registro irrevogável, público, imutável, rastreável end-to-end, que é capaz de programar valores a cumprirem um registro de condição pré-definida. Os envolvidos devem realizar previamente um processo de verificação e, por consenso, decidir se querem ou não dar como válida as transações.

 

E engana-se quem acha que essa tecnologia pode ser aplicada apenas no setor bancário. Na visão de Mario Robredo, especialista no assunto e Gerente de Inovação e Novos Negócios na Indra, existem soluções para múltiplos setores, inclusive as mais orientadas à segurança da gestão documental e das comunicações da internet das coisas.

 

“Também estamos prospectando a possibilidade de utilizar o Blockchain para proporcionar transparência e confiança em processos participativos e no âmbito da identidade digital. Além de aplicações em moedas virtuais, autenticação documental, serviços financeiros e processos participativos”, pontua.

 

Em entrevista à Decision Report, o executivo fala do processo de maturidade o Blockchain no Brasil e como os negócios podem obter benefícios com essa tecnologia.

 

Decision Report: De fato, estamos falando de uma grande tendência no universo das TICs, mas quando veremos uma aplicação mais massiva do Blockchain no Brasil?

Mario Robredo: Acredito que o ritmo de adoção será gradativo, assim como acontece com a maioria das novas tecnologias. No caso do setor financeiro, as primeiras fases, por volta de 2016 a 2020, devem ser encabeçadas por bancos líderes e Fintechs.

 

Na primeira etapa, os bancos deverão se dedicar ao entendimento da tecnologia, identificação e casos de uso, ao passo que as Fintechs orientarão seus trabalhos a modelos de negócio mais experimentais e sem escala.

 

Em uma próxima etapa, entre 2021 e 2025, o Blockchain deverá ser utilizado pelas demais empresas do setor, uma vez que os benefícios de sua aplicação começarão a ser percebidos naquelas companhias líderes e inovadoras que o adotaram na primeira onda.

 

Após este período, o Blockchain deverá experimentar seu auge, quando a tecnologia se converterá em um standard para eliminar intermediários das infraestruturas centralizadas, substituindo-as por transações P2P (Person-to-Person). A esta altura, espera-se, também, que os aspectos jurídicos e fiscais suportarão plenamente estas operações.

 

DR: Os aspectos legais farão parte dos grandes desafios dessa tecnologia?

MR: Estamos falando de um novo paradigma para compartilhar informação digital de maneira segura e transparente. Contudo, como tantas outras tecnologias, sua aplicação dependerá das leis vigentes onde quer que seja utilizada. Ou seja, se por um lado o Blockchain tornará mais eficientes uma diversidade de processos, por outro seu alcance estará sujeito ao âmbito regulatório e o que é permitido neste contexto. No Brasil não deve ser diferente.

 

DR: E nesse processo, o Blockchain sofrerá alterações?

MR: De fato, acredito que essa solução se tornará uma tecnologia mainstream, mas de uma forma completamente distinta de como é conhecida hoje. Ela deverá se converter em algo habitual aos usuários, mas com umas funcionalidades e aparências diferentes, como já tem acontecido com outras tecnologias ao longo da história, a exemplo de casos de ferramentas de redes sociais ou buscadores de internet, por exemplo.

 

DR: Quais os caminhos para a massificação do Blockchain e quem vai liderar esse movimento?

MR: O futuro desta tecnologia vai ser decisivo em muitos setores. O Brasil, por ter um segmento bancário bem desenvolvido, deve seguir o movimento mundial e ter nos bancos os principais líderes no movimento de adoção da tecnologia. Em termos de segurança, o grande ganho com o uso do Blockchain é que não será mais necessário contar com um agente que atue como certificador para comprovar a autenticidade das transações. Ele á a comunidade que garante essa autenticidade sem ter que confiar em uma entidade concreta.

 

Ainda no âmbito da segurança, a tecnologia demonstrou ser tremendamente engenhosa de modo a evitar ataques maliciosos. Até agora, não pode ser hackeada e se necessitaria uma capacidade de cálculo inimaginável para poder realizar um ataque efetivo, o que endereça diretamente as necessidades do segmento bancário.

 

DR: Em termos de liderança profissional, o CIO pode estar à frente dessa aplicação?

MR: O CIO certamente pode lidera-la. A verdade é que em muitas companhias ainda impera a ideia de que o CTO tem em seu papel gerenciar a tecnologia de uma companhia, mas isso não é completamente verdade. Esta é uma visão antiga e que não representa o trabalho do futuro do CTO, que deve representar um agente de mudanças dentro das empresas, tendo com tarefa primordial mudar os sistemas para estruturas abertas baseadas em nuvem, analytics, APIs, Blockchain e Inteligência Artificial.

 

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